A dramaturgia lorquiana cheira à morte e seu texto poético – espaço preto/branco – vasto areal a estampar os rastros de Andaluzia; por ele seguem, a pé, os ciganos, os cegos cantadores, os meninos tagarelas, as mulheres “pudientes”, os “pregoneros”, os peregrinos da Espanha estoica, católica, radical às vezes, pronta para o perdão imediato, ereta, em direção ao tempo sem fronteiras, de pé. Granada, riso escancarado, obsessão, gosto de comida servida em bandejas amargas: o apelo de Tânatos! Mas o dramaturgo poeta segue o seu caminho sem olhar para trás; segue-o com sua “guitarra” e sua solidão. O menino Federico e seu colar de pássaros na garganta despertam os galos para o agora!
Yerma não é simplesmente um texto teatral; defini-lo assim seria limitá-lo. Quando Federico García Lorca escreveu o poema dramático, revelou a melancolia que toma o homem em período tão complexo. Era o ano de 1934 e o mundo explodia pelo medo e fracasso. Lorca sabia disso. E a história de um homem incapaz de trazer à vida um filho revelava o quanto a falência do humano atingira o ser. Esse é o aspecto fundamental do espetáculo dirigido pelo goiano Altair de Sousa, trazer à tona o quanto o indivíduo se tornou impotente em suas múltiplas dimensões.
A natureza externa e interna do homem configura a desconstrução de sua própria segurança, de tal modo, a ponto de nem mesmo o meio e o percurso se configurarem como instrumentos de contraposição. Ao apresentar Yerma, a Cia. de Teatro Sala 3 novamente questiona a capacidade do homem atual de realizar seus sonhos, mostrando o quanto estamos submersos às impotências de sistemas de forças, cujas condições desconhecemos e descobrimos apenas depois de atingidos. Não resta outro caminho que não o de tentar. Então, fracassamos também no existir como verdade. E esse é o mais terrível sonho próximo da destruição: o de nos reconhecermos humanos e, por isso, especiais. Yerma é um dos grandes personagens da história do teatro moderno, talvez por se mostrar tão obstinada a cumprir um desejo não partilhado pelo companheiro.
SINOPSE:
Em 1934, Federico García Lorca escreveu o poema dramático Yerma, abordando a esterilidade de um casal pela perspectiva feminina, em um ambiente de mistério e poesia típicos. Casada, desejando um filho, Yerma trilha um caminho que a levará à tragédia. Nesse contexto, a encenação utiliza-se da falência dos argumentos racionais da narrativa para elaborar um espetáculo que trata de uma investigação cênica sobre a impotência em múltiplas dimensões: das regras frente à vontade; dos laços sociais frente à animalidade do corpo; das palavras e acordos que resultam em violência e rupturas; do indivíduo frente à moral. É nesse território desconhecido que se passa a peça, em que a violência surge livre e em oposição. O fim das coisas, um jogo de morte. Mas, acima de tudo, a impossibilidade de realizar sonhos.
“Yerma”
Texto: Federico García Lorca
Tradução e adaptação: Altair de Sousa
Direção: Altair de Sousa
Preparação de elenco: Bruno Peixoto
Preparação em canto: Sheila de Paiva
Preparação em dança flamenca e coreografias: Renata Paolucci
Direção musical: Sergio de Paiva
Iluminação: Rodrigo Assis
Cenografia: Daniel Herrero
Adereços e objetos de cena: Adriana Rufino, Gilmar Soares, Carlos Catini e Késsia Coutinho
Trilha sonora original: Gustavo Vazquez
Maquiagem: Caroline Albuquerque, Dieferson Gomes e Daniela Rosário.
Figurino: Dieferson Gomes
Violão: Valdemar Alves
Instalação: Layza Vasconselos, Daniel Herrero, Adriana Rufino, Késsia Coutinho e Rodrigo Assis.
Programação Visual: Paulinho Pessoa
Produção e Assessoria de imprensa: Alessandra Almeida e Esley Zambel
Fotografia: Layza Vasconselos
Produção Executiva: Marcelo Carneiro e William Barbosa
Direção de produção: Cia. de Teatro Sala 3